Palavrório


Cansei de querer viver de arte.

Quero um emprego reacionário que sustente minha vida libertária.



Dia desses, estava no enterro de uma tia-avó muito querida, que infelizmente a velhice e a doença haviam levado sua aparentemente infinita jovialidade. Por sua idade avançada e os últimos anos em galopante decrepitude, sua morte era esperada e não havia maiores angústias no salão de velório. Estávamos todos muito tranquilos e com exceção do momento do fechamento do caixão não houve maiores comoções na pequena audiência.

No cortejo pelas alamedas do cemitério, eu e minha mãe conversávamos sobre nossos desejos tumulares frente às opções de jazigos que nossa família dispõe, concordando que nenhum deles nos interessava, pois queríamos ser cremados. Enquanto especulávamos sobre os possíveis destinos de nossas cinzas, surgiu a questão de minha avó, mãe de minha mãe, que poderia optar entre ser enterrada com seu marido ou seu pai.

A matriarca, com a saúde de quem passara a juventude a leite de cabra e a clareza de quem criou quatro filhos sozinha após a prematura morte de seu marido, respondeu:

- Tanto faz, minha filha. Eu já estarei morta mesmo.

- Mas mãe, é que você pode escolher ser enterrada junto com seu pai ou seu marido. Poderia querer estar com um deles…

- Tanto faz, minha filha – repetiu minha avó – estarei com eles em outro lugar.

- Bom então vamos te enterrar aqui no São João Batista mesmo, porque o Caju é muito contra-mão.

- Ah, tá ótimo.

.

Adoro a praticidade mineira da minha família.





Isso é o quê dá curtir roque...05/10 – Video Games Live (R$80 : Caneção/RJ)

13/10 – The Cult (R$120 (R$60 com doação 1kg de alimento ou um livro)  : Circo Voador/RJ)

18/10 – Vive la Fête (R$40(até 06/10) : Centro Cultural Ação da Cidadania/RJ)

25/10 – Klaxons (R$140 : TIM Festival/RJ)

08/11 – Jesus and Mary Chain (R$130 : Planeta Terra/SP)

08/11 – REM (R$230(pista) : HSBC Arena/RJ)

08/11 – Kylie Minogue (R$160 (pista) : Credicard Hall/SP)

15/11 – Cindy Lauper (R$??? : ???/RJ)

15/12 – Madonna (R$250(pista) : Maracanã/RJ)

Será que esse negócio de assaltar igrejas funciona mesmo??? Ando pensando numa alternativa dessas. :D

Mas tenho minhas prioridades: Klaxons e Jesus & Mary Chain são obrigações espirituais para mim. The Cult, pô baratin, aqui do lado, não posso deixar pra lá e ficar com dor de cotovelo depois. REM eu já vi, veria de novo se não estivesse tão caro e se não fosse no mesmo dia do Jesus. Vai ficar de fora.

A Kylie também ficou em conflito de datas e, na boa, nem sou fã pra esse dispor a tanto; gosto só de uma ou outra faixa. Se o show fosse mais barato e aqui no Rio, eu até pensava na possibilidade.

A Cindy, poxa, vai ter que rolar. Mas ainda não achei informações mais sólidas além das datas no site oficial.

E a Madonna, bem, já estive muito pilhado. Já despilhei. E agora estou pensando no assunto novamente. O disco novo é caído, a turnê está brega e os sets muito meia-boca. Mas sei lá, é a Madonna, e toda cinqüentona. Não sei se ela vai ter pique por muito mais tempo para continuar com essas turnês mirabolantes por aí. Tudo bem que os Stones continuam pulando mundo afora enquanto caminham a passos largos na direção dos 70. Mas eles não contam. Afinal, seus affairs com o demo devem ter algo a ver com isso…

E ainda tem o Video Games Live, que eu sempre perco. Mas esse ano eu vou!

Eu acho…
Mas não desligue agora!(UPDATE)

Com tanto show bacana na lista, esqueci completamente do Vive la Fête que faz show aqui no Rio dia 18/10. Esse também é obrigatório.

Listinha devidamente atualizada.



A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não…

- Lobão, Essa Noite Não

Fiquei com essa música repetindo no rádio mental por boa parte do dia. Decidi então que esta seria a citação da noite. Na festa onde encontraria amigos mais tarde, quando fosse feita a primeira menção à palavra “angústia”, eu desfiaria o refrão, aguardando a reação da audiência.

Mas na hora esqueci a letra.

Na verdade, eu esqueci a palavra “expressão”. Sem ela, havia o sentimento de que algo faltava ali, que a canção estava incompleta e sem sentido. Titubeei, como faço de costume, em meias frases atrás da resposta, sem sucesso.

Após muitos anos, medos, males e amores, nós três nos reencontramos trancados naquele lugar. Muito sendo dito, repentinamente e de uma só vez. Nem tudo novidade, nem tudo verdade, embora houvesse um tanto disso ainda. Porém, por mais que eu estivesse lá para escutar, não fiz isso. Hoje, não sou mais capaz de escutar algumas coisas. Tornei-me surdo, descrédulo e insensível à certas palavras.

Mas mesmo assim (ou justamente por isso), eu pedi meu momento de falar. O que em verdade gostaria de ter dito não seria bom e com certeza estragaria o momento que estava sendo vivido; não por mim, pois estava ausente de espírito ali. Eu era somente um espectador cruel até então, ouvindo criticamente as vírgulas do discurso repetitivo e me defendendo com o sarcasmo maligno que me revolve nesses momentos. Então, contei-lhes apenas meia-verdade, uma verdade maquiada de compreensão e amor. Não que não houvesse verdade, compreensão e amor em minhas palavras. Sim, havia, mas era só uma ponte para o passado. Infelizmente, o presente não é mais tão belo. É um tanto árido na realidade.

Aconteceu que precisei matar algumas pessoas para sobreviver aos eventos dos muitos (muitos e muitos) dias que se passaram desde aquele tempo, e no revés disso tudo, acabei matando um pouco de mim também. Matei crenças, filosofias, certezas, e substituí-as por outras mais seguras e menos voláteis. Tornei-me seco e incapaz de aceitar e sentir algumas coisas, por mais simples e sinceras que sejam.

Mas isto foi apenas metade da história. Não que ela se divida verticalmente em seqüências que se substituem. É uma metade seccional. Divisória paralela dos fatos que se sobrepõem no tempo como elementos independentes, embora íntimos. Nesta outra seção houve tempo, trabalho e vontade para que a aridez se desfizesse. Mas aqui eu também fui incapaz de me pronunciar competentemente. E a questão é exatamente de competência. Se por um lado administro uma secura íntima com cuidado e atenção vigiada, por outro sou inapto em lidar com aquilo que me é caro. Inapto em demonstrar o que realmente importa ser demonstrado.

E justamente a falta de expressão que me vela incógnito, embora sempre presente. É não saber expressar na oralidade o que sei do meu mundo de símbolos, imagens e sensações. E antes fosse algo complexo ou perigoso de ser dito. Antes fosse. Mas não, é simples e suave. Só não sei colocar as palavras corretas e fico me perdendo nesse labirinto de letras, em mil voltas ao redor do tema sem tocá-lo diretamente. Sem queimar as patas na lâmpada, na clareza.

Mas mesmo assim acho que sou entendido, quando necessário e por quem precisa.

E isso, por si só, vale um rim se preciso.



Your Drafts:
O Cão
Os desvarios da Vontade (ou 93 caminhos para se perder)
Doce de Batata e Kant
Francisco
Clara
Hermenêutica Hermética
Morte Súbita Inc.
Heartbeats
Tempo
Zen Saúde: Uma Auto-Análise Taoísta
Desapego
Sincronicidades
Um Ensaio sobre o Individualismo
Clique do bom…
Bi-Polar

… e tão pouco sendo dito.



Não posso pimenta
Não posso parmesão
Não posso batata-frita
(nem faço questão)
Não posso café
Não posso peixe cru
Não posso chocolate
Não posso cachorro-quente
Não posso frituras
Não posso gorduras
Não posso leite
Não posso açúcar
Não posso yoga
Não posso folhas
Não posso integral
Eu posso passar mal
Não posso acarajé
Não posso in the blues
Não posso me envolver
Não posso dar no pé
Não posso stress
Não posso bobagem
Não posso ficar de sacanagem
Não posso correr
Não posso calar
Não posso guardar
Não posso esquecer
Não posso muito
Nem posso pouco
Não posso nada
Mas me sirvo de tudo



Being Boring
Pet Shop Boys

I came across a cache of old photos
And invitations to teenage parties
“Dress in white” one said, with quotations
From someone’s wife, a famous writer
In the nineteen-twenties
When you’re young you find inspiration
In anyone who’s ever gone
And opened up a closing door
She said: “We were never feeling bored

‘Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: “Make amends”
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end”

When I went I left from the station
With a haversack and some trepidation
Someone said: “If you’re not careful
You’ll have nothing left and nothing to care for
In the nineteen-seventies”
But I sat back and looking forward
My shoes were high and I had scored
I’d bolted through a closing door
I would never find myself feeling bored

‘Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: “Make amends”
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end
We were always hoping that, looking back
You could always rely on a friend

Now I sit with different faces
In rented rooms and foreign places
All the people I was kissing
Some are here and some are missing
In the nineteen-nineties
I never dreamt that I would get to be
The creature that I always meant to be
But I thought in spite of dreams
You’d be sitting somewhere here with me

‘Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: “Make amends”
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end
We were always hoping that, looking back
You could always rely on a friend

And we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: “Make amends”
And we were never being boring
We were never being bored
‘Cause we were never being boring
We were never being bored


O show dos Pet Shop Boys na quarta foi maravilhoso. O Whatever Hall não estava cheio e tinha bastante espaço pra dançar e pular todos os grandes sucessos. Pena que não levei a câmera pra registrar os momentos.Enfim, foi perfeito com excessão de uma coisa: não tocaram Being Boring, pra mim a melhor música deles.


É engraçado como essa música me invoca sentimentos estranhos. Uma nostalgia do que nunca vivi. De uma forma ou de outra eu sempre estive entediado, mesmo com todas as inocentes festinhas adolecentes que ia, e com as festinhas nem tão inocentes assim da vida adulta. Um tédio que não sei de onde vem ou do que sente falta. Apenas uma quase constante condição de insatisfação… Não, não é essa a palara. Acho que é incompletude. É, talvez…Acho que sou um enui desde criancinha.



Não adianta nada ter uma máquina digital e não usar.

Comprei a minha já tem mais de um mês que tirei pouquíssimas fotos. Falta pilha, falta cartão e principalmente falta fotógrafo.  :P

Ontem, animadinho de whisky, desandei a usar a máquina, tirando foto com um monte de gente na Goth Box. Menos foto do que poderia, e com menos gente que gostaria, mas pelo menos é algum registro.  :D

O resultado ficou armazenado aqui, o meu velho Fotki, que estava intocado há mais de três anos. Reorganizei ele, deletei algumas coisas nada a ver e pretendo agora voltar a usá-lo como depositório dos meus registros fotográficos. Deixei ainda algumas coisas velhas e interessantes por lá, pra quem quiser ver e deixar um comentário. ; )



Dia da mulher e coisa e tal.

Talvez eu devesse escrever algo sobre minha admiração pelo gênero feminino da nossa espécie. Ou sobre a feminilidade de cada um de nós, independente de gênero.

Mas não tenho tempo, nem estou inspirado.

Já cumpri a minha parte comprando rosas para as mulheres do escritório.

; )

Beijos e parabéns pra vocês.



Desculpem a citação Hazeliana, mas eu adoro essa frase.

Este blog andou um pouco sortuno ultimamente. Nem sei se tanto assim, mas eu acho que um certo clima sorumbático encostou por aqui. Sei lá, vocês não acham?

Eu não sei se acontece com vocês, mas eu escuto vozes.

É sério.

Não são meus pensamentos, não é nem com a minha voz. Acontece quando estou distraído, meio sonolento ou quanto tento esvaziar a mente. Surgem como pedaços soltos de diálogo. Uma frase desconexa, sem referência com nada que eu esteja fazendo no momento. A sensação é de que entrei por um instante na mente de outra pessoa. Ou de que estou sintonizando um rádio.

É esquisito.
Ou esquizofrênico.

Complicado vai ser quando elas começarem a me dar ordens.

:D

It wont give up it wants me dead
Goddamn this noise inside my head



Alta madrugada de quinta-feira.
Tecnicamente a quarta-feira de cinzas já acabou, mas ainda resta um gostinho de queimado aqui.

Uns dias atrás fui mostrar a uma amiga o layout que havia feito para um antigo blog meu, o falecido Máscaras de Arlequim, onde toda aquela história de Arlecchino começou. O primeiro post data de 28 de fevereiro de um (impressionantemente) distante 2003.

Quatro anos atrás…
É quase inacreditável isso.

Mas enfim, era uma sexta-feira, véspera do carnaval. E o blog surgia depois de uma estranha experiência no blog anterior, o Metamorphina original, que acabou fechado. Era uma máscara sob a qual voltava o recalcado, como disse Waly Salomão em A Fábrica de Poema, cantada pela Adriana Calcanhoto.

Foi curioso rever e reler aquelas palavras, de um tempo que às vezes parece tão distante, às vezes tão recente. Coisas engraçadas perdidas do contexto nesses anos. Outras ainda atuais nas suas questões. Ecos antigos resoando aqui e acolá. Crises, bobagens, banalizações, jogos e muita “desconversa”, posts totalmente vazios de sentido só pra falar algumas coisa, quando não havia nada pra ser dito. Ou até havia, mas não queria.

Pretendia falar mais sobre isso, mas nem sei o quê, nem como. Além do mais passam das cinco da manhã, e tenho que em poucas horas estar no escritório, para o que resta de útil nessa semana.

Talvez um outro dia.



28. Now a curse upon Because and his kin!
29. May Because be accursed for ever!
30. If Will stops and cries Why, invoking Because, then Will stops & does nought.
31. If Power asks why, then is Power weakness.
32. Also reason is a lie; for there is a factor infinite & unknown; & all their words are skew-wise.
33. Enough of Because! Be he damned for a dog!

Ah tá.



 

 

s i l ê n c i o

 

 

enquanto os mortos falam, os fantasmas se divertem

 

 



Título batido e pretencioso.

Principalmente para alguém como eu, que nunca leu Sartre. Na verdade estou na metade de “A Idade da Razão”, que é um ótimo livro, mas sou um leitor enrolado que lê as coisas num espaço imenso de tempo, simplesmente porque se fico um dia sem ler acabo não continuando a leitura e o livro fica alí esperando ser terminado.

Independente da citação apresentada logo de cara, ignoro completamente o contexto em que ela se encaixa na obra do pensador francês. No entanto, quando comecei a desenvolver o que viria a ser este post, trabalhava sob o título de “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, pérola gótica do nosso cancioneiro nacional, como eu costumava dizer em idos tempos de mIRC, no canal #Gótico da DalNET.

É impressionante como só conseguimos nos enxergar no reflexo do outro. Uma vez que esse reflexo é apenas parcial, assim como nossa percepção dele, nossa visão de nós mesmos é uma verdadeira porcaria que vagamente deve lembrar o que somos de fato.

No entanto, é o único meio de nos conhecermos.

Podemos tentar meditações, yoga, exercícios de purificação mental e centenas de outras técnicas que devem render milhões em livros de auto-ajuda mundo afora. Porém, é fato, a percepção que vemos no reflexo do outro é a que mais revela. E assusta. Afinal, em um mundo social não tem a menor importância quem você é em si. Ninguém liga para quem você é, mesmo dizendo o contrário. As pessoas se importam (quando se importam) é com o que você parece para elas, o que normalmente é o que você faz parecer, queira ou não.

É aí que a gente descobre que todo nosso esforço em sermos nós mesmos é vão. Nós nunca chegamos a ser alguém. Somos muitos alguéns nas cabeças de outros tantos alguéns que na verdade não fazem a menor idéia de quem somos. Assim como nós também não fazemos.

Dia desses foi aniversário de um colega do trabalho. Gente boníssima, um cara simpático que curte boa música. Como fui convidado para a participar da particular comemoração que marcara para uma noite de sábado, pensei em levar além de um vinho para fazer os salgadinhos descerem mais facilmente, um DVD com centenas de MP3 que acreditava, seriam do gosto dele.

Sabendo mais ou menos o que ele ouvia, montei um repertório que ia de Claire Voyant à Mila Mar, de Collection d’Arnell-Andrea à Black Tape for a Blue Girl. Assim como todos os cinco volumes da coletânea Heavenly Voices, artigo raro de achar, mesmo hoje em dias digitais de álbuns fáceis.

Seleção feita, queimei o DVD, fiz uma capinha bacana e levei pra ele, que agradeceu muito e disse que aos poucos ia carregando seu iPod com o presente.

Passam alguns dias e saio da minha clausura, onde fico confinado a fim de desenvolver títulos geniais para meus queridos clientes, e dou uma passadinha no departamento de arte para dar um alô pro pessoal.

Clima pesado, rostos sorumbáticos. O rapaz que trabalha com o tráfego (coisa de publicidade, não trânsito) estava sentado com o rosto enfiado nos braços cruzados. Nem cheguei a falar nada e meu querido e presenteado colega explica a situação:

- Tá todo mundo ficando doente com as suas músicas, Flavio.

- Anh?

- Você trabalha escutando mesmo isso? – pergunta o trafego. – É muito depressivo!

Estavam ouvindo Claire Voyant, o segundo álbum acho, Time and the Maiden.

- Poxa, isso é lindo. - tento me defender sem um argumento muito convincente, afinal dizer que é lindo não é absolvição para tristeza alguma, como sabemos bem.

“The pain of this illusion comforts me
it reminds me of how well I was…”

É, não tinha muito o que me defender. O fato é que eles tinham descoberto que eu gostava, e muito, de coisas tristes. E a descoberta deles também foi minha. Não que eu não soubesse disso. Sei disso muito bem, há muitos anos. O que não sabia era que isso era percebido por mais alguém além de mim, por mais óbvio que seja. E quando essa percepção vem, é como um eco. Ela bate no fundo do outro e aparece na nossa frente. Algo que saiu de nós mesmos e agora se manifesta fora de nós. Assim, vemos de fora, de outro ângulo, outra perpectiviva, aquilo que tinhamos como bem conhecido e entendido, confortavelmente quardado na gaveta das questões resolvidas (ou ao menos percebidas).

Quando eu era adolescente não existia blog. Mal havia internet, o que só apareceu lá pra 95/96, acho. Então, quando eu tinha uns catorze anos comecei a escrever algo que chamava de “cartas para mim mesmo”. Não eram cartas exatamente. Eram apanhados de idéias e reflexões, colocadas no papel. Não chegava a ser um diário porque era uma produção muito ocasional e não remetia a nenhum fato necessariamente. Eram pensamentos escritos à mão que ficavam guardados à sete chaves. Ninguém poderia ler aquilo, era íntimo demais. Quem lesse me descobriria por inteiro, veria que eu não era sempre aquele garoto alegre, divertido e sorridente, cheio de amigos que buscavam conselhos sobre suas dores. Veria que eu era, apesar de tudo isso, solitário.

Ainda tenho esses textos guardados numa pasta aqui em casa. Não são muitos, nem devem chegar a vinte, embora o hábito dessas “cartas” tenha ido de 94 até 99, acho.

Eu sempre me preocupei muito em esconder esse meu lado das pessoas. Essa melancolia que me seguia desde a infância. Lembro dos fins-de-tarde. Aquele laranja que tomava todo o céu quando estava em alguma das casas de férias que minha família costumava ir. Olhava o pôr-do-sol e ficava pesado, triste. Aquele fio de luminosidade transformava todas as coisas, tudo parecia lento e em breve sumiria junto com a tarde. Mas logo chegava a noite com suas luzes artificiais e novelas e tudo parecia voltar ao normal. Normalmente.

Agora me pergunto, será que apesar de todos os meus esforços em parecer ser sempre uma pessoa alegre e divertida, os outros percebiam essa máscara?

Na verdade isso nem importa. Meu esforço não era em não ser revelado, embora eu não soubesse disso. Meu esforço era em não me ver. Ocultar-me de todos era não encarar no espelho do outro a confirmação de tudo que eu já sabia. Era pra evitar de ver no outro o meu inferno particular, que me era tão precioso por ser só meu.



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