Cinema, TV & Teatro


Em seus seis anos de exibição, Lost revolucionou a televisão em diversos níveis, tanto nos aspectos narrativos que explorou, quanto nos novos paradigmas de audiência que se estabeleceram no culto à série, e até mesmo em novas fórmulas de produção. É inegável inclusive a influência da série além do mundo da TV, transformando áreas como o marketing e a comunicação ao solidificar (senão criar) técnicas de guerrilha como o marketing viral e o ARG.

Mas sem dúvida, o que mais surpreendeu o grande público foi a capacidade da série em se recriar a cada temporada. Pensando bem, a cada ano, Lost nos apresentou uma série nova: mistério, fantasia, ficção científica, conspiração, drama… E a cada abordagem da saga dos protagonistas perdidos, uma nova técnica narrativa era apresentada. Flashback, flashforward e agora o polêmico e divisor de opiniões flashsideway.

Acredito que a maior razão da rejeição de muitos em relação a essa nova forma de narrar a história é que pela primeira vez não ficou claro o que isso significa. Se antes os flashbacks eram uma forma de desenvolver os personagens e as relações entre eles e os flashforwards uma forma de criar expectativa e tensão pelo que estaria por vir, os flashsideways pareciam não ter nenhum conteúdo senão mostrar como seria a vida deles se uma determinada bomba de hidrogênio tivesse explodido em uma ilha desconhecida do pacífico 30 anos atrás.

Mas é claro que não poderia ser só isso. Uma série tão bem elaborada em quase todo o seu percurso não poderia se render em sua temporada definitiva a um recurso que não significasse nada a não ser mostrar uma outra realidade sem a menor relação com o eixo principal da história.

Como todo mundo, acabei involuntariamente cedendo boa parte do meu tempo pensando em como amarrar isso, e acho que encontrei a solução.

Claro que isso envolve bastante futurologia em imaginar o que está apenas em algumas poucas cabeças, e justamente por isso existe uma altíssima probabilidade de estar redondamente enganado e perdendo o meu tempo explicando e o de vocês lendo.

Mas vamos lá, a minha hipótese é a seguinte: em 1977 Juliet de fato explodiu a bomba de hidrogênio, matando a todos ao redor e inviabilizando a continuidade da Iniciativa Dharma. A partir deste ponto (e somente a partir dele mesmo, antes dele tudo permanece igual) a vida de todos é alterada por diversos motivos que não são importantes agora, mas que vão desde a ausência de Jacob quanto a meramente um Efeito Borboleta, onde certamente TODO o mundo foi afetado por esta alteração no rumo da história.

Neste quadro, a realidade dita “principal” (que daqui por diante chamarei de Primária, por achar que é um termo mais adequado) simplesmente não existe. Nunca existiu. A partir do momento em que a bomba explode, tudo o que vimos na série até então não apenas desapareceu como nunca aconteceu de fato. O plano de Faraday deu certo, a escotilha nunca foi construída, o avião nunca caiu e ponto final. Fim da história.

No entanto, sabemos que a história não acabou. Continuamos vendo os losties correndo pela ilha e para eles o plano simplesmente não deu certo.

As duas realidades são obviamente excludentes, uma não pode existir se a outra aconteceu. Elas só podem acontecer uma em vez da outra. E é aí que entra minha teoria: a Realidade Paralela será resetada por eles mesmos, possibilitando a continuidade da Realidade Primária.

Como assim? Então, explico. Já estava mais ou menos claro que os losties em sua vida fora da ilha tinham certa sensação de deslocamento ou intranquilidade. Em Happly Even After, fica evidente que eles têm de alguma forma (que duvido que seja explicada e nem acho que precise ser) lembranças de sua outra existência. Antes mesmo deste último episódio, já imaginava que Desmond, por suas características especiais de não se submeter ao tempo e espaço, seria o elemento catalisador que mostraria que o curso da história foi alterado e que os resultados disso não são tão bons quanto parecem. De posse desta certeza, de que a explosão que causaram foi mais maléfica que benéfica, eles mesmos serão responsáveis por evitar que aquela bomba seja detonada em 77, eliminando toda aquela realidade para que o curso da história volte ao que deveria ser; e que de fato estamos vendo desde o primeiro episódio da série.

Na minha teoria, o Desmond da Paralela (se é que esta definição se aplica a ele, pois talvez seja capaz de transitar entre as realidades sendo ele mesmo em ambas) conseguirá retornar ao passado e evitar que aquela bomba exploda e de quebra fazer com que todos que estavam presos nos anos 70 voltem para 2007. Como fará isso, não sei. Só imagino que essa será a explicação de por que vemos as duas realidades a cada episódio, quando na verdade a Realidade Primária só será possível quando a Realidade Paralela se extinguir pelas mãos deles mesmos.

Obviamente, a minha proposta é paradoxal e cai num círculo onde a existência da Realidade Primária só é possível com eliminação da Realidade Paralela e vice-versa. Por isso batizei a minha teoria de Paradoxo de Faraday-Widmore, em homenagem às duas faces do físico que em ambas realidades descobriu meios de reescrever a história.

Na minha teoria, os eventos ocorreriam nesta ordem:

  1. Em 1977, o Incidente ocorre normalmente, levando a construção da escotilha.
  2. Em 2004, enquanto os Oceanic 6 saem da ilha, saltos temporais levam os losties para 1974.
  3. Em 2007, o vôo 316 da Ajira cai na ilha, levando parte dos Oceanic 6 para 1977.
  4. Em 1977, Juliet detona a Jughead, alterando o curso do tempo dali em diante, apagando a Realidade Primária e criando uma nova realidade que chamamos de Paralela, no entanto, os losties retornam para 2007 da Realidade Primária.
  5. Em 2007 da Realidade Primária, Desmond entra em contato com seu “Eu Paralelo” de 2004
  6. Em 2004 da Realidade Paralela, Desdmond retorna a 1977 (ano comum às duas realidades), antes que Jughead seja explodida
  7. Impedindo a detonação da Jughead, Desmond apaga a Realidade Paralela e restabelece a Realidade Primária.
  8. Em 1977, o Incidente ocorre normalmente, levando a construção da escotilha.

Abaixo, fiz um gráfico onde tento demonstrar minha teoria visualmente. Clique para ampliá-lo.

Assim sendo, a Realidade Paralela é apenas um desvio de 27 anos da Realidade Primária. Uma espécie de parêntese temporal que existe enquanto a Realidade Primária é suspensa pelo desvio causado pela explosão da Jughead. O que a série nos mostra parecendo ser concomitante em ambas as realidades, na verdade só é possível após os losties da Realidade Paralela restabelecerem a Linha do Tempo Primária. Ou seja, de certa forma o Flashsideway é um tipo diferente de Flashforward!

É claro que a minha teoria não explica tudo. Ficam várias lacunas em aberto. Por exemplo, por que eles conseguem ter flashes da Realidade Primaria? Ou como a Realidade Paralela pode ser influenciada pelo futuro da Realidade Primária se esta só é possível se aquela for eliminada antes? E principalmente, como ao evitar explosão da Jughead os losties que estavam em 77 voltam para 2007? Mas, enfim, é apenas uma proposta e boa parte da diversão em assistir Lost é justamente quebrar a cabeça imaginando respostas, por mais que certamente elas nunca se aproximem do que apenas os Darlton sabem.



Pra mim, RPG tem dessas coisas: se decido criar algo, seja uma campanha, um jogo one-shot, ou um personagem, sempre corro atrás do maior número possível de referências. Aí, ano passado, resolvi começar uma campanha ambientada no Velho Oeste e mergulhei nesse universo que até então era quase que alienígena para mim. Com exceção dos desenhos do Pepe Legal, sabia quase nada sobre esse mundo de caubóis, pistoleiros, xerífes, índios, diligências e quilômetros de areia, rocha e tiros, muitos tiros.

Revirei a a internet (Amém Google! Amém Wikipedia!) atrás desse pedaço da história americana e aprendi sobre a Guerra da Secessão, tribos índígenas, ferrovias, Corrida do Ouro, Mórmons e todos os outros elementos que constituíram o imaginário dos EUA em meados do século XIX. E claro que, como o RPG é um hobbie que quase por definição alimenta-se de cultura pop, não poderiam ficar fora da minha pesquisa os filmes que retrataram essa época e definiram o que hoje entendemos como western. Até porque, no final das contas, o que importa não é a História, assim com H maiúsculo, e sim o que se conta dela.

E assim fui parar com a Trilogia dos Dólares no meu HD. Dirigido por Sergio Leone, o Rei do Western Spaghetti, a trilogia conta com ninguém menos que Clint Eastwood no papel do anti-herói solitário que aparentemente por não ter nada melhor para fazer resolve enfrentar o mal e libertar os oprimidos.

Saca só o estilo.Por um Punhado de Dólares é o primeiro filme da trilogia e é um remake de Yojimbo, de Akira Kurosawa (que acabarei assistindo também qualquer dia desses) e conta a história de um homem sem nome, que ao chegar na pequena cidade de San Miguel a encontra dividida entre duas famílias de criminosos, os Baxters e os Rojos. Enquanto os Baxters representam a corrupção da Lei, na figura de John Baxter, um xerife americano corrupto que trafica armas, os Rojos representam os mexicanos violentos, traficantes de bebidas que mantêm a mocinha do filme aprisionada apenas para satisfazer os desejos de Ramón Rojo, o impiedoso e psicótico líder do clã.

Neste cenário, o Pistoleiro Sem Nome chega já dizendo a que veio e, de cara, aparentemente sem motivo algum, arruma uma briga com os capangas dos Baxters e enche quatro fulanos de bala, fazendo a alegria do velhinho que vive de fazer caixões na pequena cidade. A partir daí ele começa um verdadeiro mindfuck nos bandidos, enquanto acumula algumas centenas de dólares trabalhando ora para uma família, ora para outra.

E assim o filme prossegue, marcado pela trilha sonora icônica de Ennio Morricone, que viria a se tornar sinônimo de duelos ao pôr-do-sol.

Até metade da fita, a coisa anda meio devagar. Um tiroteio aqui, outro acolá. A história chega até a ficar meio confusa (e as falas em italiano não ajudam muito a tentar pegar o que às vezes parece que a legenda deixou passar) com tantas trocas de lado que o Pistoleiro Sem Nome faz.

Então a trama de fato se revela: Marisol fora sequestrada de seu marido e filho por Ramón Rojo e o Pistoleiro Sem Nome está ali pra resolver isso e toda dança de lealdades que fez até então era apenas para reunir esta família e libertá-la do mal. E não, não existe nenhum background que justifique isso. Ele apenas estava de passagem e resolveu que ia acabar com a bagunça. O mais próximo que há de uma justificativa surge quando perguntado por Marisol porque ele os está ajudando, o Pistoleiro responde seca e enigmaticamente, “Porque soube de alguém como vocês uma vez. E não havia ninguém lá para ajudá-los”. Maneiro.

Daí pra frente o filme engrena, a contagem de corpos aumenta drasticamente e vemos como o Pistoleiro Sem Nome é capaz de matar um monte de gente armada até os dentes com uma única pistola. Maneiro, muito maneiro.

Lógico que o herói não se dá bem o tempo todo e acaba sendo pego e apanhando feito um cão ladrão. Mas isso é apenas para gerar aquele anticlímax necessário para o que talvez seja a mãe de todas as cenas de duelo.

No final das contas, é claro que o nosso herói vence, para em seguida montar em um cavalo e deixar para trás uma família reunida, uma cidade livre de seus malfeitores e provavelmente o velhinho que constrói caixões milionário.

Closes excelentes, expressões faciais fantásticas e uma quase total falta de maniqueísmo fazem de Per un Pugno di Dollari um filme como não quase não se vê mais por aí. Não sei se chega a ser assim genial, mas é bem executado e certamente seminal para o gênero de ação.

Nota: 7,5


O Projeto 200 Filmes é uma teimosia minha em tentar assistir neste ano pelos menos 200 filmes que ainda não tenha visto. É eu sei, é bem difícil, principalmente considerando minha rotina maluca e as séries que acompanho que ocuparão um tempo precioso no meio do caminho. Mas se não fosse difícil, qual seria a graça?



Me engana que eu gosto!Não dá pra evitar o trocadalho: Deception é uma decepção mesmo. Eu estou cheio de filmes para assistir, um monte de séries acumulando em cima da mesa e quando começaram a subir os créditos finais rebombava apenas um lento e profundo “puta que pariu…”

É o tipo de filme que prova que de boas intenções pupula o inferno. Bons atores, uma idéia quase legal, uma traminha besta mas que dava pra fazer um trabalho melhor. Tudo muito medíocre, mas sabe, às vezes um bom roteiro e um bom diretor podem fazer até chapeuzinho vermelho ficar interessante.

Mas não. O filme é morno, óbvio e tem um final péssimo. O final inclusive merece um parágrafo a parte:

O filme acaba justamente quando ele te engana dizendo que a história vai ficar boa, que o turn point vai funcionar e que pelo menos toda a lenga-lenga até então vai valer à pena. Não. Nada funciona e o filme acaba da forma mais besta possível.

Mas nem tudo é péssimo. Na primeira parte do filme o Evan McGregor mostra que seu personagem, apesar de quase virgem, se descobre um deus do sexo capaz de traçar meia Wall Street. A sacanagem rola solta com mulheres altamente gratificantes para as retinas (minhas, pelo menos). A atuação do duo McGregor/Jackman não é das melhores, mas dá pro gasto. Também tem uma ponta de Charlotte Rampling do bacaninha Swimming Pool. É bem uma ponta mesmo, mas ela sozinha faz muito mais que o duo protagonista e a mocinha bonitinha mas sem sal.

Nota: 5

ps: antes que algum engraçadinho apareça, eu sei que “deception”, não é “decepção” em inglês, ok?



Repórter:
“Tenho que perguntar com alguma preocupação, após ver este filme, se o senhor está bem”
David Lynch:
“Estou muito bem.”

Vai demorar a chegar, mas com certeza vai valer a pena a espera. INLAND EMPIRE (assim mesmo, em letras maiúsculas) foi lançado em setembro passado no Festival de Veneza e causou reações como a do preocupado reporter norueguês acima. Talvez por isso mesmo a nova viagem lisérgica de David Lynch não encotrou ainda um distribuidor, mesmo no seu próprio país, os EUA.

Como aqui em Terra Brasillis o negócio deve demorar ainda mais, o jeito é ir se contentando com os trailers abaixo.

1: http://www.youtube.com/watch?v=y4hFEDYmMcM
2: http://www.youtube.com/watch?v=1RPYOtPSnZc

Quem sabe ano que vem o filme chega via DVD em alguma das escassas locadoras de arte que pingam por aí.

Quem já viu Rabbits, o seriado que foi exibido apenas pelo site pago do David Lynch, já teve um gostinho do que vem por aí no longa, uma vez que a bizarra família de coelhos em sua casa escura, “na cidade sem nome e afogada por chuvas sem fim” está no meio das quase três horas da nova surtação Lynchiana.

Ah, você não viu? Eu já!:P