Entre os caminhos tortos do centro da cidade as fachadas são sempre cinzas e algo decadentes. Carregam em si reflexos sombrios de um tempo passado, mais grato em significados. Mas aquela viela me surpreendeu. O caminho curvo e quase claustrofóbico de paredes corroídas trazia bem no meio um enorme e belíssimo portal branco. Suntuoso, trabalhado em algum material que não me importou verificar na hora, mas que bem poderia ser mármore, bem polido e sem manchas. Duas pesadas portas, igualmente alvíssimas, dobradas para dentro ofereciam sua entrada para qualquer um que por ali passasse. E mesmo sem ver o que havia dentro, mesmo ainda medindo de longe essa estranha aparição, podia notar o brilho azulado que de dentro vinha, intenso e claro qual o reflexo de um lago, daqueles que só existem em sonhos ou filmes.
Fui logo em direção ao exuberante pórtico ver ao quê levava. No curto caminho tentei me localizar no espaço. Sabia que nem tão cedo voltaria ali, mas tinha que saber ao menos em que rua estava para não só poder voltar, como também trazer comigo alguém para partilhar dessa visão pitoresca.
Mesmo sem achar nenhuma referência clara de onde havia ido parar (mas tenho quase certeza de que estava numa paralela de uma grande avenida) atravessei o adornado batente para encontrar lá dentro uma ainda mais magnífica visão. Parecía-me uma espécie de templo, mas sem cadeiras ou altar. Separadas por um caminho que cruzava o salão, duas fontes jorravam água cristalina e de alguma forma emprestavam aquela luminosidade azulada ao ambiente. Ao fundo e erguido por um par de escadas um púlpito era iluminado por enormes janelas que mais pareciam paredes de vidro. Não havia ninguém em lugar algum, mas no púlpido, repousado sobre um pedestal estava um livro pesado e volumoso, aparentemente aberto em uma página qualquer. Subi para folheá-lo e das rápidas passadas que dei lembro-me apenas do fragmento do título, que parecia versar algo sobre o Bem e o Mal.
Surgiram pessoas em roupas de monge, mas de um tecido branco e com detalhes em azul e dourado. Apesar da aparente receptividade do ambiente, expressa em suas portas escancaradas, eles apressavam-se em me retirar dali, com ares de mal-humor. Desceram-me do púlpito e levaram-me por um estreito jardim que havia atrás do edifício, logo abaixo das enormes janelas.
Por fim puseram-me pra fora por uma pequena porta enegrecida de ferrugem, que dava para um lugar um tanto escuro e aparentemente imundo. Era ainda a mesma rua em que estava antes, mas num ponto bem mais a frente. Ao longe virando a curva eu podia ver, agora fechadas, as portas colossais por onde havia entrado. Esse trecho da rua era como um curto túnel, estava coberto por uma construção que a atravessava de calçada à calçada, formando um arco. Haviam detalhes na sua arquitetura que mais pareciam piche derretido. Linhas e adornos negros, espessos e orgânicos.
Procurei novamente pelo nome da rua, e logo ao lado da porta por onde havia saído, uma pesada placa de ferro trazia escrito em letras um tanto tortas: Rua do Porão Podre da Torre.