March 2006


Entre os caminhos tortos do centro da cidade as fachadas são sempre cinzas e algo decadentes. Carregam em si reflexos sombrios de um tempo passado, mais grato em significados. Mas aquela viela me surpreendeu. O caminho curvo e quase claustrofóbico de paredes corroídas trazia bem no meio um enorme e belíssimo portal branco. Suntuoso, trabalhado em algum material que não me importou verificar na hora, mas que bem poderia ser mármore, bem polido e sem manchas. Duas pesadas portas, igualmente alvíssimas, dobradas para dentro ofereciam sua entrada para qualquer um que por ali passasse. E mesmo sem ver o que havia dentro, mesmo ainda medindo de longe essa estranha aparição, podia notar o brilho azulado que de dentro vinha, intenso e claro qual o reflexo de um lago, daqueles que só existem em sonhos ou filmes.

Fui logo em direção ao exuberante pórtico ver ao quê levava. No curto caminho tentei me localizar no espaço. Sabia que nem tão cedo voltaria ali, mas tinha que saber ao menos em que rua estava para não só poder voltar, como também trazer comigo alguém para partilhar dessa visão pitoresca.

Mesmo sem achar nenhuma referência clara de onde havia ido parar (mas tenho quase certeza de que estava numa paralela de uma grande avenida) atravessei o adornado batente para encontrar lá dentro uma ainda mais magnífica visão. Parecía-me uma espécie de templo, mas sem cadeiras ou altar. Separadas por um caminho que cruzava o salão, duas fontes jorravam água cristalina e de alguma forma emprestavam aquela luminosidade azulada ao ambiente. Ao fundo e erguido por um par de escadas um púlpito era iluminado por enormes janelas que mais pareciam paredes de vidro. Não havia ninguém em lugar algum, mas no púlpido, repousado sobre um pedestal estava um livro pesado e volumoso, aparentemente aberto em uma página qualquer. Subi para folheá-lo e das rápidas passadas que dei lembro-me apenas do fragmento do título, que parecia versar algo sobre o Bem e o Mal.

Surgiram pessoas em roupas de monge, mas de um tecido branco e com detalhes em azul e dourado. Apesar da aparente receptividade do ambiente, expressa em suas portas escancaradas, eles apressavam-se em me retirar dali, com ares de mal-humor. Desceram-me do púlpito e levaram-me por um estreito jardim que havia atrás do edifício, logo abaixo das enormes janelas.

Por fim puseram-me pra fora por uma pequena porta enegrecida de ferrugem, que dava para um lugar um tanto escuro e aparentemente imundo. Era ainda a mesma rua em que estava antes, mas num ponto bem mais a frente. Ao longe virando a curva eu podia ver, agora fechadas, as portas colossais por onde havia entrado. Esse trecho da rua era como um curto túnel, estava coberto por uma construção que a atravessava de calçada à calçada, formando um arco. Haviam detalhes na sua arquitetura que mais pareciam piche derretido. Linhas e adornos negros, espessos e orgânicos.

Procurei novamente pelo nome da rua, e logo ao lado da porta por onde havia saído, uma pesada placa de ferro trazia escrito em letras um tanto tortas: Rua do Porão Podre da Torre.



Não lembro mais quem havia feito ou o por quê disso, mas eu tinha dois tiros no peito. A primeira ferida era maior e um pouco mais abaixo da segunda que parecia ter sido feita por uma bala de menor calibre. Doía, mas não tanto quanto eu imaginava que seria a dor de ter levar dois tiros próximos ao coração.

Não lembro também da reação das outras pessoas, e sim elas estavam ao redor mas pareciam ou chocadas demais ou indiferentes demais para fazerem qualquer coisa. Eu mesmo com um lenço tentava estancar a hemorragia e durante alguns instantes pareceu que minhas tentativas de sobreviver estavam funcionando. Avisava às pessoas que estava bem e que o sangue parara de jorrar mas não parecia haver muita reação ao que eu falava.

Então me dei conta que estava deitado nu sobre uma mesa. Dois médicos à minha volta observavam com cuidado as feridas e depois de máscaras e luvas de látex começaram a me abrir com um bisturi. Não doía, talvez pelo efeito da anestesia, e pouco a pouco iam me abrindo, observando e anotando. Então, sem um motivo aparente, retiraram o meu pé direito. Quando notei o que haviam feito levantei a voz em protesto, ao que responderam com um olhar surpreso para mim enquanto um deles disse algo como:
- Fique calmo e parado. Já estamos terminando a sua autópsia.

Ah, então era isso, eu estava morto.

Deixaram-me sozinho sobre a mesa e foram provavelmente tomar um café. Levantei-me e, com a dificuldade de um coxo, busquei meu pé direito que estava em uma bandeja de aço próxima. Saí de lá.

Ah sim, agora eu lembro, o segundo tiro fui eu mesmo quem deu…