A casa era estranha e mal-iluminada. Não lembro de perceber qualquer fonte de luz em lugar algum. Ainda assim um vestígio de claridade existia e fazia os móveis quase distinguíveis. Portas e corredores encontravam-se em salas pesadamente decodadas.
A casa era estranha e confusa. Um labirinto de cômodos onde o ar denso, quase palpável, garantia um cheiro sinistro e tenso.
De um lado a outro eu andava, procurando talvez por algum sentido. Até chgar em uma sala grande de móveis muito antigos e escuros. Do outro lado uma figura sombria, quase espectral, sentava-se numa poltrona. Não o via direito, apenas seu contorno e um pouco dos braços deitados sobre os apoios laterais.
Não sei exatamente o que aconteceu. Acho que mexi em algo e isso fez aquele vulto reagir. Levantou-se lentamente mas com firmeza, e pude sentir, ele iria me matar.
Corri me perdendo no redemoinho de corredores e neles achei meu amor perdido. Ela me encarava em pânico apontando para algo atrás de mim. Da mesma forma eu, transfigurado de horror, vi surgindo na escuridão que se erguia às suas costas o vulto macabro, de punho erguido encerrando um fino punhal.
Tudo se apagou.
Gritei.
E senti a ferroada, fria como a morte, rasgando minhas costas.
TYPE O NEGATIVE MARCA LANÇAMENTO PARA MARÇO
O Type O Negative marcou para o dia 19 de março o lançamento de seu próximo álbum.
Esse novo disco, sucessor de “Life Is Killing Me”, que saiu em 2003, se chamará “Dead Again”.
Fonte: Dynamite Online
Há dias atrás comecei a escrever algo…
Ainda meio assim, ébrio.
Não há sentido em ter voz e não falar. Muitos fazem seus votos silenciosos buscando nisso o caminho para si mesmos. Outros se calam por medo de entregar seus tesouros secretos. Outros, mesmo felizes em entrega-los, ainda assim se calam por medo de ferir àqueles que, crêem, podem ser feridos.
Semanas se passaram e assim permaneceu. O que era pra ser um ensaio sobre o silêncio, silenciou-se. Nada mais natural.
Como revela a primeira frase, não estava no meu perfeito domíno. Na verdade era bem cedo e acabava de voltar de uma festa onde entre uma vírgula e outra eu descia um gole de alguma coisa alcólica. E foram muitas vírgulas. Muitas vírgulas, alguns pontos e menos reticências que de costume. Estava bêbado, com sono e com muitas coisas na cabeça.
…
Praticamente todo dia abro a janela de edição desse blog, olho para este post incompleto e nada faço. Apenas olho, me prometo continuar, mas nenhuma palavra escrevo. Reinou o silêncio.
Outro dia escutei no trabalho:
- Onde está o Flavio?
- Está ali falando pelos cotovelos!
E eu realmente falo muito. Demais mesmo. E acho, embora sem muita certeza, que na maior parte das vezes sou bem chato com o tanto que falo.
O que com certeza ninguém deve perceber é que sou praticamente autista. Tudo que tanto falo pelos cotovelos na verdade não estou falando para ninguém. Eu estou o tempo todo falando sozinho. Talvez não totalmente sozinho, mas para mim mesmo. Para alguma audiência interna, para meus eus subterrâneos que negam a existência de qualquer vida consciente além deles mesmos e de mim.
Isso tem alguns efeitos inconvenientes. Muitas vezes já me peguei dizendo coisas que não tinham a menor necessidade de serem ditas. Especialmente para as pessoas presentes. Especialmente sobre coisas minhas que eu não quero que sejam ditas. Não são todos, mas existem algumas pessoas, sempre que falo, acabam por ouvir de mim mais do que eu gostaria ou deveria ter dito.
Mas estou me desconcentrando.
Desviando do assunto.
Evitando-o.
A questão raiz é por que abrir um espaço público de exposição e não utilizá-lo como se espera?
Hoje por acaso passei por um blog abandonado (já perceberam com a internet, apesar de sua relativa juventude, é um cemitério digital?) e em seu último post a autora dizia que o abandonava pois ele estava entregue ao superego. Ela não podia continuar escrevendo se era permanentemente assaltada por si mesma questionando que efeitos aquelas palavras teriam sobre certas pessoas. O mesmo é o que se passa comigo. Há anos. Dois pelo menos, acredito.
O que deve ser feito então? Mandar um foda-se generalizado e desligar a supervisão de conteúdo? Talvez sim.
Mas isso é mentira. Desculpa esfarrapada e fácil, colocando a culpa no outro.
“Tudo para sua proteção.”
Quando penso sobre o essa questão do silêncio sempre me vem a mente que não tenho com quem falar. E se, afinal, falo comigo mesmo apenas, não há sentido em vir aqui escrever. Não digo com isso que não existam leitores aqui. Sei que um ou outro passa ocasionalmente. Sei que vocês existem. Vejo seus rastros anônimos no contador de visitas. Mas os ignoro. Não me importo. Já me importei um dia, mas hoje nem ligo muito.
Não quero ligar.
Mas além de ignorar vocês, meu silêncio tem ignorado também minha audiência interna. Meu silêncio é um vácuo de consciência, onde esqueço de mim e não me vejo, toco e ouço. Pela minha proteção.
Acho que está na hora de voltar a me violentar um pouco.
Pela minha própria saúde e sanidade.
…
publish!