A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não…

- Lobão, Essa Noite Não

Fiquei com essa música repetindo no rádio mental por boa parte do dia. Decidi então que esta seria a citação da noite. Na festa onde encontraria amigos mais tarde, quando fosse feita a primeira menção à palavra “angústia”, eu desfiaria o refrão, aguardando a reação da audiência.

Mas na hora esqueci a letra.

Na verdade, eu esqueci a palavra “expressão”. Sem ela, havia o sentimento de que algo faltava ali, que a canção estava incompleta e sem sentido. Titubeei, como faço de costume, em meias frases atrás da resposta, sem sucesso.

Após muitos anos, medos, males e amores, nós três nos reencontramos trancados naquele lugar. Muito sendo dito, repentinamente e de uma só vez. Nem tudo novidade, nem tudo verdade, embora houvesse um tanto disso ainda. Porém, por mais que eu estivesse lá para escutar, não fiz isso. Hoje, não sou mais capaz de escutar algumas coisas. Tornei-me surdo, descrédulo e insensível à certas palavras.

Mas mesmo assim (ou justamente por isso), eu pedi meu momento de falar. O que em verdade gostaria de ter dito não seria bom e com certeza estragaria o momento que estava sendo vivido; não por mim, pois estava ausente de espírito ali. Eu era somente um espectador cruel até então, ouvindo criticamente as vírgulas do discurso repetitivo e me defendendo com o sarcasmo maligno que me revolve nesses momentos. Então, contei-lhes apenas meia-verdade, uma verdade maquiada de compreensão e amor. Não que não houvesse verdade, compreensão e amor em minhas palavras. Sim, havia, mas era só uma ponte para o passado. Infelizmente, o presente não é mais tão belo. É um tanto árido na realidade.

Aconteceu que precisei matar algumas pessoas para sobreviver aos eventos dos muitos (muitos e muitos) dias que se passaram desde aquele tempo, e no revés disso tudo, acabei matando um pouco de mim também. Matei crenças, filosofias, certezas, e substituí-as por outras mais seguras e menos voláteis. Tornei-me seco e incapaz de aceitar e sentir algumas coisas, por mais simples e sinceras que sejam.

Mas isto foi apenas metade da história. Não que ela se divida verticalmente em seqüências que se substituem. É uma metade seccional. Divisória paralela dos fatos que se sobrepõem no tempo como elementos independentes, embora íntimos. Nesta outra seção houve tempo, trabalho e vontade para que a aridez se desfizesse. Mas aqui eu também fui incapaz de me pronunciar competentemente. E a questão é exatamente de competência. Se por um lado administro uma secura íntima com cuidado e atenção vigiada, por outro sou inapto em lidar com aquilo que me é caro. Inapto em demonstrar o que realmente importa ser demonstrado.

E justamente a falta de expressão que me vela incógnito, embora sempre presente. É não saber expressar na oralidade o que sei do meu mundo de símbolos, imagens e sensações. E antes fosse algo complexo ou perigoso de ser dito. Antes fosse. Mas não, é simples e suave. Só não sei colocar as palavras corretas e fico me perdendo nesse labirinto de letras, em mil voltas ao redor do tema sem tocá-lo diretamente. Sem queimar as patas na lâmpada, na clareza.

Mas mesmo assim acho que sou entendido, quando necessário e por quem precisa.

E isso, por si só, vale um rim se preciso.