Eu não lembro muito bem como começou. Estávamos num prédio eu e algumas pessoas com quem trabalho. Era um prédio grande, com muitos corredores e escadas. Havia muita agitação entre todos pois era evidente que o prédio estava para cair a qualquer momento.

Não lembro também porque o prédio estava pra cair. Algo vago me conta que ele estava terminalmente torto, uma Torre di Pisa sem sorte e habitada que gemia.

Precisávamos sair de lá, mas um dos nossos se negava a seguir em frente sempre que via alguém preso ou desesperado demais para correr. Seja o que for que tivesse acontecido à estrutura do edifício, também havia abalado qualquer senso de autruísmo que existia em mim. Era vida ou morte e não podíamos parar. Agarrava João pela manga da camisa e puxava-o para as escadas contra sua vontade. Explicava-o que não tínhamos tempo para isso. Ele protestava, mas talvez seu impulso heróico não fosse tão mais forte que seu apego à vida e mesmo contrariado, brandindo sua culpa, descia as escadas conosco.

A última coisa que lembro era estar abraçado a alguém, já fora do prédio, desesperadamente triste pelas vidas que se perderam no desastre. Ou se perderiam, pois não estava claro se o prédio havia de fato caído.

Então acordei.

Janaína e Manuel estavam comigo pois passávamos um fim de semana juntos numa cidade praiana qualquer. Contei-lhes do sonho, em detalhes maiores do que consegui contar aqui. Não deram muita bola. Ouvir sonhos dos amigos certamente não é algo tão interessante quanto sonhá-los de fato. E este sonho era especialmente muito perturbador para mim. Sonhos com prédios são relativamente comuns no meu universo onírico, sempre em duas apresentações: O Elevador e O Prédio que Cai.

Nos sonhos do tipo “O Elevador”, estou em um prédio aparentemente conhecido, querendo chegar a algum lugar, mas o elevador se nega a me levar onde quero, manifestando uma aparente vontade própria. Quando decide parar, me revela andares até então inexistentes ou que pelo menos não sabia existir. Como num castelo kafkaniano às avessas, fico trancado, subindo e descendo pelo elevador ou escadas sem achar uma saída, impedido de voltar ou seguir para onde originalmente pretendia ir (e ressalto que esses novos lugares revelados são sempre estranhíssimos, lynchianos e realmente bizarros).

Os sonhos do tipo “O Prédio que Cai” são exatamente o que parecem e, como pode-se imaginar, naquela noite tinha tido um deste tipo: estou em um edifício e ele vai cair a qualquer momento. E quando ele não desmorona de imediato, é muito difícil sair do prédio pois diversas coisas ficam no caminho da saída: escadas bloqueadas, pessoas que precisam de ajuda, elevadores emperrados, ou simplesmente esqueço que o prédio está caindo e acabo fazendo outra coisa até lembrar que tenho que correr dali.

Tentava contar aos meus amigos meu drama noturno e eles não estavam dando a mínima.

Seguíamos a pé pelas ruas da cidade até que outro amigo nosso passou de carro e nos deu uma carona. Queríamos ir à praia e parecia que ela era mais distânte do que imaginávamos. Entramos no carro, conversamos amenidades e enfim chegamos no nosso destino. Como não havia vaga na rua nosso motorista entrou na garagem de um prédio qualquer cujo porteiro aparentemente não se importava se quem estacionava lá era morador ou não. Rimos dessa ingenuidade, estacionamos e saímos do carro.

Foi aí que aconteceu aquilo de novo. A paralisia. Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Já passei por outros episódios e é sempre muito assustador, pois sei que não estou sonhando. Estou acordado, não consigo me mexer ou falar e minha visão fica congelada na última imagem vista, no caso uma janela gradeada voltada para o lado de fora da garagem.

Mas desta vez era diferente. Normalmente este tipo de assalto aos meus movimentos acontecem quando estou relaxado, entre a vigília e o sono, e a paralisia é tamanha que sequer consigo falar. Agora havia entrado neste estado repentinamente e completamente desperto. E conseguia falar. Desesperado, apelei aos meus amigos que mexessem em mim, para quem sabe assim meu corpo acordasse daquele torpor consciente. Janaína olhou meus olhos e disse que eles estavam fixos, congelados, e as pupilas muito dilatadas.

Apesar de consciente, minha mente estava muito confusa. Comecei a falar coisas que para mim mesmo pareciam sem sentido. “A lua nova estava vindo” eu repetia entre outras frases igualmente desconexas. Estava muito agitado e o corpo imóvel aumentava ainda mais meu nervosismo e inquietação.

De repente, os movimentos voltaram. Foi como se tivesse despertado novamente, mas já estando acordado. Senti-me fraco, impotente e principalmente incompreendido, pois meus amigos faziam pouco caso do evento. Ainda os vi de soslaio rindo pelas minhas costas enquanto subia a escada que levava para fora da garagem.

Um sino distante começou a tocar. Era meio-dia e meu alarme trouxe-me de volta à minha cama, no meu quarto, completamente sozinho.


Absurdo Íntimo é um antigo blog que mantive há alguns anos onde registrava meus sonhos. Hoje, trouxe os posts (e comentários!) dele para cá pro Metamorphina. Para vê-los basta clicar na Etiqueta “Absurdo Íntimo” na barra lateral. Bons sonhos.