Fri 2 Feb 2007
Eram gritos horríveis. Quase inumanos.
Não dei muita atenção nos primeiros segundos, mas a persistência daquele horror acabou me chamando para a janela.
Na cobertura do prédio em frente, um jovem obeso gritava desesperado para os céus com as mãos na cabeça andando de um lado para outro da enorme varanda. Não fui metafórico quando disse que os gritos eram inumanos. Não havia humanidade ali, somente desespero numa forma que eu nunca havia visto antes. A primeira impressão que tive foi de que presenciava um surto, alguém que perdera totalmente a ligação com a realidade e parecia nada disposto a retornar a ela.
Mas não, repetidamente ele ia até a beirada da varanda e olhava para baixo. No terreno baldio ao lado, um homem apenas de bermuda estava deitado de costas, imóvel.
Suicídio. Era a realidade gritando dez andares abaixo.
Fiquei na janela um pouco confuso, sem saber direito o que pensava. O sofrimento daquela família, que nunca me viu nem sabia quem eu era, me angustiava. Pensava sobre o paradigma da morte e a fragilidade do homem. Nas relações humanas que nos envolvem e que nos marcam tão profundamente. Perda, saudade, medo, posse, identificação, amor.
Minha mãe chega ao meu lado, olhando um pouco consternada para a cena. Ficou calada um tempo e depois disse: “Você sabe que seu avô também morreu assim, né?”
Não, não sabia. E parecia ser o único a não saber. Descubro então que meu avô, que sempre acreditei ter sido vítima de um infarto fulminante aos quarenta e poucos anos, deixando mulher e quatro filhos adolescentes numa manhã de natal, na verdade tinha dado um tiro na cabeça.
“Depressão”, minha mãe disse. O curioso é que sempre foi feita uma imagem dele de homem brincalhão e alegre. Sempre que me falavam de meu avô diziam como ele era espirituoso, divertido e sensato. Que mesmo sendo Comandante da Aeronáutica, não tinha aquele rancor e dureza que marcam os militares em geral. Talvez tudo isso fosse verdade. Ou pelo menos parte da verdade que merecia ser lembrada.
Morte, “a indesejada das gentes”. Sempre tive uma identificação profunda com os temas mórbidos, mas nunca, que me lembre, tive medo da morte, mesmo quando era um garoto católico cheio de concepções de inferno e promessas de paraíso. Achava que era um bom menino e meu destino óbvio era a sagração celestial. Não tinha culpa, logo não tinha medo da danação eterna. O que me assustava na morte era a dor, o sofrimento físico e a angústia de deixar os que me amavam sem mim. Essa parte é boa. Não me assustava na morte perder a convivência com os que permanecessem vivos. Acreditava eu que uma vez morto eles não me fariam falta, afinal mesmo com alguma concepção sutil de pós-morte, o que quer que houvesse seria um outro momento, sem qualquer relação com esse mundo dos vivos. Então me preocupava o sofrimento que eu causaria com a minha ausência.
Cresci e minhas concepções religiosas dissolveram-se. Hoje poderia dizer-me espiritualizado, místico até, mas já fui de um ceticismo feroz e estéril. Mas em nenhum momento meu interesse em qualquer assunto que remetesse ao fim das coisas foi afetado. Pelo contrário, elaborou-se. Passou para outras esferas. Ruínas, prédios abandonados, jardins esquecidos, ambientes decadentes… Tudo isso me encanta na mesma proporção que me incomoda. Quando estou em algum lugar que me invoca essas experiências sinto-me profundamente desconfortável, no entanto atraído, encantado.
Talvez seja esse jogo de polaridades que me atrai tanto. A perspectiva do fim, retratada no outro e nas coisas, lembra-me da minha finitude e da finitude de tudo ao meu redor. Tudo vai perecer, é natural e necessário. No entanto fica no presente uma marca da existência, restos de histórias, vidas que sentiram e criaram. E isso atiça minha imaginação, vejo a vida fantasmagórica que habita o abandono, um retrato imaginário de tudo que foi sobreposto ao que é.
Mas isso tudo é muito desconectado da existência objetiva. Na realidade cotidiana, a morte é a ruptura, muitas vezes abrupta, de laços que jamais queremos lembrar que serão cortados. Embora saibamos que esse é o fim ultimal de tudo.
Morreremos. Abandonaremos e seremos abandonados durante toda a vida. E isso é bom.
A morte é o que nos faz vivos e não o contrário. Se nada perdessemos e não fizessemos falta a nada, não haveria sentido algum em viver. Não digo em existir, pois existência ainda me é incógnita em significado. Mas viver seria uma tarefa ainda mais angustiante se não tivessemos um horizonte velado do fim a nossa frente. Não teríamos propósito, meta, não nos sentiríamos impulsionados a nada se não houvesse uma contagem regressiva indeterminada desde que nascemos.
Os cultos antigos de veneração da morte enxergavam essa verdade com muito mais conforto do que nossa sociedade dita civilizada. Eles compreendiam que a vida só advinha da morte. O velho precisava dar lugar ao novo, que se constituiria, seja por continuidade, seja por oposição, a partir da estrutura pregressa. Das ruínas e abandonos do tempo passado.
Daí toda e qualquer forma de eternização é em verdade uma morte em vida. As tradições, as forças rígidas da estase, os estatutos, as monarquias, as concentraçoes de poder. Tudo é vida-morta, inerte e inoperante. Existente mas paralizado, sem ação e muito menos criação.
A morte nos transforma. Muda a vida de quem fica. E é preciso criar para não morrer junto. Criação é o ato sagrado dos deuses, o que os qualifica. Quando criamos, somos deuses manifestos e arbitramos sobre a nossa realidade. A criação é o feito máximo que une fim e princípio, desconstrução e construção. Quando criamos, vencemos a morte, sem negá-la, em uma nova vida.
Portanto “Lembra-te que morrerás”. E cria.
Faz da vida teu reino e domínio, para que então seja a morte a coroa de tudo.
February 6th, 2007 at 13:38
Karaaaaaaaliooooooo…
O q q vc ta fazendo que aind anão escreveu um livro? Tá muito bom…perfeito…sem comentários…
(mas essa história do seu avô, não é verdade é?!)
beijos.
February 6th, 2007 at 15:45
Respondi seu comment lá no seu blog.
Beijos.
February 8th, 2007 at 01:36
Ai amigo… não quero comentar esse post não… vc sabe, eu tenho dificuldades em digerir esse assunto…
Nossa, mas está muito bem elaborado e desenvolvido. Gostei muito, fui lendo com o maior entusiasmo apesar do tema em questão ser, ainda, um tabu pra mim. Preciso resolver isso o quanto antes. nhá…
Lamento pelo seu avô, não imagino minha vida sem o meu, mas gostaria imensamente – lá vai eu me enfiando em poços fundos… – de saber quais os motivos o levaram a cometer suicídio, depressão é muito vago. Irônico q apesar do meu problema em aceitar a morte eu tenho um certo “fascínio” (não sei se seria bem essa a palavra) no q diz respeito ao q leva ao suicídio. Fico sempre querendo saber exatamente o q levou cada pessoa a fazê-lo.
Acredito q essas pessoas q cometaram suicídio teriam muito a nos dizer. Os maiores gênios não se suicidaram ou enlouqueceram?
bjUUs amigo!!
Ps: Porra, pede e-mail!?!? Q chato…